

Antropofagia. É esta a máxima da identidade nacional de um país que nasceu com sangue indígena, europeu e africano, e que até hoje mantém viva, ainda que de forma inconsciente, uma alma ao mesmo tempo canibal, vanguardista e malandra.
Este projeto surgiu de uma necessidade crescente em questionar o que faz alguém ou alguma coisa serem brasileiros. E para se chegar a uma possível essência brasileira, era preciso tentar identificar padrões estéticos, artísticos e sonoros em meio ao caos completo de um povo que já foi ou ainda é índio, escravo, negro, europeu, oriental, peão, urbano, rural, colônia, império, república, modernista, tropicalista, concretista, militar, democrático...
Desde a descoberta pelos portugueses, criou-se no Brasil uma cultura de importação, não só de bens materiais e tecnologia, mas também de ideologias, artes, moda, música e todo tipo de manifestação cultural, além, claro, das próprias pessoas. Europeus, principalmente portugueses que vinham a mando da metrópole, escravos africanos, italianos trabalhando nas lavouras de café, orientais que vinham vender seus produtos. Não é de espantar, então, que com o passar dos anos (e séculos) fosse surgindo uma admiração pelo que era de fora. Era na Europa que se encontravam os queridos arquitetos, pintores, escritores, os melhores tecidos, utensílios e adornos. Era na África que estavam os irmãos, os pais, a casa. Era difícil aceitar o novo espaço geográfico recém-descoberto como lar. E assim, toda a cultura foi sendo produzida nos moldes estrangeiros, o que acabou se firmando por ser apenas uma prática da cópia pela cópia.
Foi com os modernistas do início do século XX que os olhos dos artistas brasileiros se voltaram para o Brasil. A Semana de 22 talvez tenha sido não apenas uma ruptura na estrutura tradicional das artes plásticas, literatura e música, mas também um norte para o estudo do que é realmente a identidade nacional brasileira. Oswald de Andrade nos introduziu à metáfora da Antropofagia, um conceito que foi essencial para se encontrar um denominador comum entre todas as diversas características do povo brasileiro. A idéia de Antropofagia concebida por Oswald se originou dos índios canibais brasileiros. Ao contrário do que se imagina, os índios antropófagos (ou canibais) não se alimentavam de outras pessoas para saciar a fome. Quando capturavam inimigos, sabiam reconhecer neles habilidades das quais não compartilhavam. Por isso, se alimentavam da carne desses inimigos com objetivo de tomar para si as qualidades que tanto admiravam. Utilizando-se desse ritual como metáfora, Oswald propôs que os artistas modernos deveriam proceder tal qual os índios antropófagos, se alimentando das vanguardas européias, da arte primitiva africana e dos próprios índios brasileiros, de forma a incorporar as suas habilidades, digeri-las e, assim, produzir uma arte exclusivamente brasileira. Não somente isso, a arte deveria também retratar o próprio Brasil, suas cores, sua natureza, suas pessoas, e não mais temas típicos da cultura européia.
Sendo assim, ao se observar os quadros da pintora Tarsila do Amaral, fica fácil identificar características essenciais do cubismo, quando as figuras se apresentavam em formas geometrizadas e multifacetadas. Mas o mais importante: ela pintou o índio, os trabalhadores e a cidade de São Paulo sob a lógica cubista, mas através do seu traço próprio, de proporções exóticas e de cores típicas da natureza tropical brasileira. O mesmo pode-se dizer de outra pintora, Anita Malfatti, que também pintou o Brasil com suas cores fortes, os negros, as paisagens, dessa vez utilizando a ótica expressionista. Isso para citar poucos exemplos.
A metáfora da Antropofagia não poderia ter surgido em local mais propício. O Brasil é uma nação que ocupa um espaço geográfico extremamente amplo, onde há milhares de anos viviam apenas os índios nativos (que são os únicos que podem ser considerados, de certa forma, brasileiros por essência). A chegada dos europeus e africanos culminou em uma mistura no mínimo excêntrica. Pode-se dizer que maioria dos brasileiros hoje é descendente de uma cultura européia e africana importada, mas que criou raízes em solo indígena. A imagem do brasileiro acaba por ser moldada na forma de um índio antropófago, de pai europeu e mãe africana. E hoje também, primo oriental, por que não?
Fica claro que a lógica da identidade brasileira não poderia ser extraída de uma estética específica, já que um país de dimensões tão gigantescas e população tão diversa não permite que se identifique um padrão visual ou sonoro. É necessário utilizar a lógica de uma metodologia de criação, que pode ser aplicada a diversos estilos estéticos e só assim será possível agrupar características comuns.
É possível, portanto, analisar toda e qualquer manifestação cultural brasileira através da ótica da Antropofagia. Do Tropicalismo dos anos 70 ao Barroco das igrejas de Minas Gerais do século XVIII. Do Concretismo à música pop dos anos 80. E no caso deste projeto, o Neoclassicismo.
O estilo Neoclássico foi introduzido no Brasil no fim do século XIX, durante o Império, principalmente na arquitetura e artes plásticas, e se consolidou como estética oficial do Governo principalmente no período de transição para a República. Sem dúvida, não existia outro estilo artístico que se enquadrasse de forma mais apropriada ao momento. Era tempo de mostrar a soberania de uma República recém-nascida que precisava se firmar perante a população. As linhas retas, sóbrias e equilibradas da arquitetura conferiam a estabilidade e austeridade de que os edifícios necessitavam, enquanto os arabescos, o ouro e os acabamentos refinados ostentavam o poder, o luxo e a prosperidade do país. As construções eram de grandes dimensões, que impressionavam e ao mesmo tempo intimidavam. Por estar tão associado ao Governo e ao poder, o estilo Neoclássico (que no Brasil também recebe o nome de Eclético) se fez mais presente nas cidades do Rio de Janeiro, que era a capital do país na época, e São Paulo, devido à grande circulação financeira em vista das lavouras de café. Mesmo assim, algumas construções de estilo Neoclássico aparecem ainda em Belo Horizonte, mesmo que tardiamente, Salvador e até Manaus, mas com menor expressividade. É interessante observar que a consolidação do Neoclássico no Brasil se deu no mesmo momento em que as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo se firmavam como metrópoles desenvolvidas.
Apesar de ter representado um período histórico recente, mas ainda assim importante, o Neoclassicismo no Brasil é geralmente associado ao mau gosto, à cópia e ao exagero. De fato, grande parte das construções foram feitas por arquitetos estrangeiros nos moldes dos edifícios europeus, geralmente franceses ou italianos, Mas hoje, passado um século, é possível perceber que existem grandes diferenças entre as construções européias e as brasileiras.
Inúmeros fatores influenciaram de forma marcante o resultado das construções Neoclássicas no Brasil. Antes de tudo, o simples fato da mudança de espaço geográfico já é, por si só, um fator determinante. A transposição de uma estrutura estética que surgiu rodeada por um ambiente específico para outro contexto completamente diferente é suficiente para mudar a relação que as pessoas têm com o resultado final. Mudam os significados, mudam os objetivos, muda a forma como o vemos. Além disso, as condições financeiras eram outras. O Brasil não era tão rico quanto os países europeus, o que influenciou na qualidade dos acabamentos e dimensões das construções. O acesso a alguns materiais também era dificultado. Por outro lado, o ouro sempre existiu em abundância, e não espanta constatar que foi utilizado em larga escala nos ornamentos dos edifícios, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo.
O clima tropical foi um dos fatores mais importantes. Era necessário um estudo diferenciado para a circulação de ar dentro dos prédios devido ao calor excessivo, ao contrário dos edifícios europeus que precisavam abrigar as pessoas do frio e da neve. As chuvas eram também mais freqüentes. Em relação ao paisagismo, não fazia sentido cercar o prédio de vegetação de clima temperado que não suportaria o calor tropical. É fácil observar a influência do paisagismo tropical nas construções, principalmente no Rio de Janeiro, onde a mata atlântica nativa rodeia os edifícios neoclássicos com suas palmeiras imensas, cicas, costelas-de-adão e tantas outras plantas ornamentais exóticas.
Obviamente, a estética do Neoclassicismo não se restringia apenas à arquitetura, mas estendia-se também às artes plásticas e artes gráficas. É possível observar carecterísticas distintas das européias, por exemplo, nas moedas e notas do período, onde se retratavam arabescos robustos, a Baía de Guanabara, os índios e a vegetação tropical.
O Neoclassicismo brasileiro, visto sob a perspectiva do Antropofagismo, tem importância inegável no estudo da identidade nacional, uma vez que representa um período de grande importância, o da formação da República do Brasil, e que persiste até os dias de hoje nas grandes cidades da região Sudeste. Não apenas como museus ou espaços históricos, mas como locais de trabalho, como é o caso de muitos edifícios de Secretarias e Prefeituras, e também de lazer, como os Teatros Municipais de São Paulo e do Rio de Janeiro, que continuam funcionando regularmente. São construções que fazem parte do cotidiano da população brasileira até os dias atuais e que refletem um Brasil pouco valorizado.